Quantas horas vocĂȘ joga?
- Rafael Braga
- 23 de fev. de 2025
- 6 min de leitura
HĂĄ quanto tempo vocĂȘ nĂŁo tem mais tempo pra sentar e jogar videogame sem se preocupar com o tempo?

Que horas vocĂȘ acordou?
Quantas horas trabalha?
Quantas horas anda por dia?
Qual sua idade?
Que horas vai dormir?
VocĂȘ vai ao cinema?
O que vocĂȘ faz no fim de semana?
Que horas vocĂȘ janta?
O impactante monĂłlogo interpretado de forma primorosa por Calunga (AntĂŽnio Pitanga) na cena inicial do filme de 1966 âA Grande Cidadeâ dirigido por CacĂĄ Diegues tem marcado presença no imaginĂĄrio digital do brasileiro no começo de 2025.
Bom, pelo menos nas redes sociais que possuem vĂdeos curtos, semanalmente me deparo com essa cena sendo repostada, Ă s vezes a cena original, outras vezes, com uma trilha sonora modificada para (quem sabe?) acrescentar mais âdramaticidadeâ ou um tom âmotivacionalâ (como se o fervor quase religioso na voz de Calunga, jĂĄ nĂŁo o bastasse) e, nĂŁo duvido, deve haver alguma versĂŁo de adolescentes dançando enquanto o ĂĄudio Ă© reproduzido ao fundo.Â
E, olha sĂł, esse texto nĂŁo existe para fazer juĂzo de valor, acho legĂtimo a identificação que o filme causa em 2025, afinal, estamos falando de uma obra que vem ao mundo dois anos apĂłs o golpe militar de 1964 no Brasil e no auge da Guerra Fria marcado pela polarização entre os Estados Unidos e a UniĂŁo SoviĂ©tica. EstĂŁo sentindo uma identificação aĂ? Pois Ă©!
Um segundo adendo: Eu nĂŁo sou exatamente um cinĂ©filo ou um crĂtico de cinema, pelo contrĂĄrio, sou apenas um apreciador da sĂ©tima arte que nĂŁo consegue mais parar por trĂȘs horas para assistir um filme, imobilizado pelas garras da economia da atenção. E nĂŁo se esqueçam que, neste portal, estamos entre desenvolvedores de joguinhos, mal temos tempo para jogar.
Isso posto, essas reflexÔes haviam rapidamente transitado no departamento de geração de textos dos meus divertidamentes quando comentei sobre a ideia com Lucas Toso, redator desse portal. Então algo aconteceu:

Para aqueles que jĂĄ tenham assistido ao filme, talvez jĂĄ seja possĂvel presumir que minha expectativa seria subvertida. O filme Ă© extraordinĂĄrio, moderno, a narrativa Ă© dinĂąmica, os enquadramentos sĂŁo lindos, todas as limitaçÔes tĂ©cnicas da Ă©poca somente acrescentam uma nova camada de beleza Ă pelĂcula. O contraste entre o preto e o branco, o bem e o mal, a vida e a morte.
Enfim, vou me podar de fazer uma anĂĄlise crĂtica, nĂŁo Ă© essa minha intenção aqui, mas estou muito feliz de ter tomado a decisĂŁo de desacelerar e assistir um filme rodado Ă seis dĂ©cadas e que continua relevante. Ă aquela sensação de um momento que nĂŁo poderei experimentar novamente, de ter assistido um filme clĂĄssico pela primeira vez.
E os video-joguinhos, o que tem a ver com isso?
EntĂŁo, com toda essa introdução gigantesca, o que nos resta Ă© falar dos vĂdeo games. E Ă© exatamente essa experiĂȘncia, de sentar, tomar seu tempo e apreciar um produto audiovisual que me trouxe o questionamento: Quantas horas vocĂȘ joga? E iria alĂ©m: A que horas vocĂȘ joga?
Voltando no monĂłlogo de Calunga, em 1966:
Uma pessoa comum acorda todo dia às seis e meia da manhã, toma café e sai para o trabalho às sete.
Chega à cidade e trabalha até o meio dia. Almoça e volta às duas para o serviço, de onde sai às seis da tarde.
Toma a condução de volta e chega em casa para jantar.
Por volta das onze horas, vai dormir [...]
Aqui podemos perceber que, de 1966 para cĂĄ, as contradiçÔes do capitalismo se exacerbaram, se intensificaram. Se acordĂĄvamos as seis, talvez para atravessar a distĂąncia entre os guetos e a cidade, a maioria de nĂłs tenhamos que acordar Ă s cinco, Ă s quatro horas nos dias atuais. Se esse trajeto durava uma hora naquele tempo, talvez hoje beire Ă s trĂȘs horas na condução lotada que, muitas vezes, cheg atrasada por conta de um incĂȘndio em um dos carros, um alagamento nos trilhos ou qualquer consequĂȘncia relacionada ao sucateamento incentivado por prĂĄticas privatistas e neoliberais.
E se por volta das onze horas, as pessoas iam dormir, repito a pergunta, Ă que horas vocĂȘ vai dormir? Com cansaço, com exaustĂŁo, depois de trabalhar, de rolar infinitamente o feed, de tentar produzir algo fora da vida no trabalho, de colocar aquela sĂ©rie em dia, de jogar video game.
E quando falamos de video games, estamos falando de uma mĂdia que trĂĄs obras com duração de oitenta, noventa, cem horas de conteĂșdo. E, por diversos motivos, a indĂșstria vem puxando esse limite mais e mais para atender uma demanda imaginĂĄria, afinal, se o jogo dura pouco Ă© sinal de que o jogo Ă© ruim, poderia dizer o "gamer hipotĂ©tico". De novo: Quantas horas vocĂȘ joga?
Em meados de 2020, o ano da pandemia, ouvi pela primeira vez ser mencionada uma pesquisa cientĂfica que relatava o fenĂŽmeno da "Vingança e procrastinação da hora de dormir" e logo depois vĂĄrios portais jornalĂsticos reproduziram a matĂ©ria da BBC que destacava que isso era algo que estava acontecendo particularmente com os jovens chineses. Porque, enfim, a China Ă© o Ășnico lugar no mundo que possui longas jornadas de trabalho. Mas spoiler: hoje, conseguimos perceber que isso Ă© um fenĂŽmeno global.

A procrastinação de vingança na hora de dormir acontece quando alguĂ©m, intencionalmente, fica acordado atĂ© muito tarde para conferir as redes sociais, assistir televisĂŁo ou praticar qualquer outra atividade a qual nĂŁo se teve tempo durante o dia. âĂ uma descrição de quando as pessoas nĂŁo tĂȘm tanto controle sobre sua rotina e vida diurna, e atrasam o sono e a hora de dormir para ter mais liberdade e tempo livre. Elas fazem isso cientes de que sofrerĂŁo consequĂȘncias negativasâ, explica Michelle Drerup, diretora do programa mĂ©dico de comportamento do sono na ClĂnica de DistĂșrbios do Sono de Cleveland, Estados Unidos, ao âYahoo Lifeâ, de onde sĂŁo as informaçÔes.
Sim, mas e os videogames com isso?
Para elaborar um pouco mais esse ponto gostaria de citar uma das melhores sĂ©ries de divulgação cientĂfica jĂĄ produzidas na televisĂŁo, escrita e apresentada pelo brilhante astrĂŽnomo Carl Sagan. âCosmos: Uma Viagem Pessoalâ de 1980.
No dĂ©cimo primeiro episĂłdio de Cosmos "A PersistĂȘncia da MemĂłria", Sagan nos apresenta uma intrigante reflexĂŁo enquanto visita a Biblioteca de Nova York, uma das maiores no mundo:
As grandes bibliotecas do mundo contĂȘm milhĂ”es de volumes, o equivalente a cerca de 10 elevado Ă dĂ©cima quarta potĂȘncia de bits de informação em palavras, e talvez 10 elevado Ă dĂ©cima quinta potĂȘncia de bits em imagens.
Isso Ă© 10 mil vezes mais informação do que a contida em nossos genes. Se ler um livro completo por semana, terei lido no fim da vida uns poucos milhares de livros, um dĂ©cimo de 1% do que contĂȘm as grandes bibliotecas de nossa Ă©poca.
O truque Ă© saber quais livros ler.

Quantos jogos de videogames existem?
Traduzindo um pouco esse conceito que Sagan nos apresenta para os jogos digitais, fiz uma rĂĄpida pesquisa, para que possamos (bem por cima) ter uma ideia da quantidade de jogos disponĂveis por aĂ, levando em consideração os consoles portĂĄteis, de mesa e jogos disponĂveis na plataforma Steam:
Master System - 312 jogos
Nintendo 64 - 393 jogos
Dreamcast - 624 jogos
GameCube - 653 jogos
NES - 706 jogos
Wii U - 783 jogos
Mega Drive - 878 jogos
Xbox - 997 jogos
Saturn - 1047 jogos
PSP - 1914 jogos
PS Vita - 2198 jogos
Nintendo 3DS - 1349 jogos
Game Boy Advance - 1498 jogos
Wii - 1597 jogos
Super Nintendo - 1756 jogos
Nintendo DS - 2030 jogos
Xbox 360 - 2154 jogos
PlayStation 3 - 2278 jogos
Xbox One - 2708 jogos
PlayStation 4 - 3163 jogos
PlayStation 1 - 4106 jogos
PlayStation 2 - 4380 jogos
Steam - 30.000 jogos
Com tantas opçÔes disponĂveis (na soma do levantamento arbitrĂĄrio acima, por volta de 67.000 jogos), Porque vocĂȘ estĂĄ terceirizando a escolha de qual jogo vocĂȘ vai jogar, para uma plataforma online? Porque vocĂȘ estĂĄ terceirizando a escolha dos jogos que nĂŁo vai jogar para um punhado de gamers raivosos escrevendo em caixa alta nas seçÔes de anĂĄlise dessas mesmas plataformas? Porque mesmo Ă© que vocĂȘ estĂĄ terceirizando a escolha de qual conteĂșdo vocĂȘ vai "scrollar" infinitamente para um algoritmo qualquer?
O QUE ESTĂO FAZENDO NO CINEMA?

No fim, acredito que o que me moveu a escrever essa coluna hoje, pode ser resumido em: Jogue os jogos que vocĂȘ quer jogar, sejam retrĂŽ, sejam lançamentos, mas desde que vocĂȘ queira jogar. Quer ele tenha sido super recomendado e exista um "hype" gigantesco sobre ele, quer tenha sido escrachado pelo crĂtica especializada.
Mesmo que vocĂȘ nĂŁo conheça e seja um jogo obscuro de 1988 lançado para Master System (Obrigado, Air Rescue), o importante Ă© estar presente e se divertir, compartilhar esse momento com quem estiver do seu lado, apenas nĂŁo esteja ali batendo o ponto de horas jogadas. Sua saĂșde mental agradece!
ReferĂȘncias:
MagalhĂŁes, P., Cruz, V., Teixeira, S., Fuentes, S., & RosĂĄrio, P. (2020). An exploratory study on sleep procrastination: Bedtime vs. while-in-bed procrastination. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(16), 5892.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32823762/
Liang, L.-H. (2020, November 26). The psychology behind ârevenge bedtime procrastination.â BBC., Retrieved February 17, 2021, fromhttps://www.bbc.com/worklife/article/20201123-the-psychology-behind-revenge-bedtime-procrastination
Sleep Corner: Revenge Bedtime Procrastination
Stanford Student Affairs Written by: Michaela Phan, Class of 2023
