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O seu jogo não precisa existir

  • Foto do escritor: Victor de Paiva
    Victor de Paiva
  • 1 de jul.
  • 4 min de leitura

Uma retórica joguinista pelo assassinato dos afetos.

este artigo é um protesto, uma manifestação, um barafuste pessoal do autor, e não reflete necessariamente a opinião do editorial do Controles Voadores. (mas pior que reflete também)

Caminhando por um dos festivais físicos de jogos de 2025 com uma amiga de longa data, logo após testarmos um dos jogos, ela vira pra mim e diz:

"legalzinho, mas é um jogo que não precisa existir"

E eu sei exatamente o que ela quer dizer. Já não é a primeira nem a última vez que vamos usar esta shorthand comunicativa.


uma homenagem a um clássico do Mega Drive (é o mesmo jogo com reskin e controles piores);

um roguelike deckbuilder de fantasia ou sci-fi;


um puzzle platformer com um protagonista bem redondinho;


A frase atribuída a Oscar Wilde "imitação é a forma mais sincera de elogio", mas desconectada de seu contexto completo: "– que a mediocridade pode prestar à grandeza";


Um desejo de conexão com o outro (sic) através da nostalgia™, ou de uma 'trend' abstrata;


Em sua pior faceta, um desejo latente porém invariavelmente meia-bomba de adquirir apelo mercadológico, baseado puramente em tags de gênero, sem uma preocupação basilar com tornar algo intrinsecamente divertido.


Mas jogos que existem, são de carne-e-osso, posso jogar. Tenho uma experiência completamente morna durante 10 a 20 minutos, a depender do desejo momentâneo de ser cordial com seus criadores, que colocaram meses ou até anos de trabalho e sacrifício pessoal para concretizar aquela experiência (sempre reconhecer o trabalho).


Um elogio pro forma, porque você sabe que, enquanto (sempre) dá para dar feedback a respeito dos controles, de alguma execução visual, sonora, ou sugestão de feature, você não é maluco de olhar no fundo dos olhos e dizer "que conceito medíocre, né, campeão? Melhor jogar fora e fazer outra coisa".


 Sir Arthur Quiller-Couch disse uma vez "assassine seus queridos" (murder your darlings). Também atribuída a Faulkner, esta citação tornou-se referência no meio da escrita – um conselho para criativos eliminarem, sem piedade, elementos de suas criações pelos quais possuem afeto, carinho, mas que não são essenciais para o sucesso da história.


Queria ver mais destes joguinistas praticando o assassinato de seus queridos. Vejo a primeira ideia surgindo, se apossando completamente dos 4 lobos, e se tornando uma cruzada de anos que normalmente termina em tragédia.


(às vezes quem tem que morrer somos nós, ou a versão de nós mesmos que a existência daquele projeto, de alguma forma, busca confirmar)


mas e o meu direito inalienável de fazer arte mediana?


Excelente pergunta, como sempre. Eu concordo! Talvez "não precise existir" seja pegar muito pesado, quando a gente coloca a escrutínio. Mas talvez você não precise vender, não precise se preocupar com otimizar o algoritmo da Steam, não precise seguir os ensinamentos de Zukowski, etc.


E não é porque algo "não precisa existir" (vinde a mim as contradições) que não tem o direito de existir. Eu também não precisava existir e estou aqui. Não precisava publicar este artigo e cá estamos. Com certeza você não precisava estar lendo um portal de jogos independentes no meio da Copa do Mundo.


Muitas vezes a função de algo existir é poder sair da frente logo para que outra coisa melhor venha a existir. Eu mesmo sigo e advogo pela máxima:


"Faça logo 10 jogos, porque os 10 primeiros vão ser ruins"

o que não quer dizer que o 11º será bom, mas com certeza absoluta os 10 primeiros vão ser ruins, então você tem que tirar eles da frente logo


Algumas outras, o motivo de algo existir é tautológico, e apenas é. le jeu pour le jeu. Já entramos em plena concordância, leitores, que ninguém é joguinista porque é divertido ou rentável. Mas porque é mais difícil não sê-lo.


Por isso, definitivamente, não é o pior feedback do mundo - "seu jogo não precisa existir". Veja alguns dos que publiquei: tem de bolinha pulando, porquinho pulando, adolescente, e trambique. Ouso dizer que o mundo da arte não foi profundamente sacudido por estas obras elevadas (o que não as impediu de ganhar inúmeros prêmios, porque nem jurados profissionais estão isentos de ter um gosto mediano). Não penso em genuíno que eles precisavam existir - diferente de, por exemplo, Disco Elysium, ou Dodgeball Academia; e não elaborarei.


Mas ainda assim, é um feedback que não me vejo fornecendo para quem não tenho um bom grau de intimidade – e não recomendo de forma alguma que passem a adotar no dia-a-dia. É um pensamento pedante, e elitista! Quarto macaco, think no evil.


E como todos os pensamentos, nós seremos invariavelmente acometidos por ele, contorcidos em angústia e horror. Gah!


Um dos filtros mais generosos que conheço para escapar dessa armadilha veio de um amigo que reduziu a sobrevivência de seus projetos a três perguntas.


vinizinho disse (não encontrei o exato post):


a fins de sumarização, cheguei em 3 perguntas específicas que resumem se um projeto meu vai ser concluído ou não:


  1. o projeto é sexy? ele precisa existir?

  2. o projeto é rápido? ele vai ser terminado dentro de 1 ou 2 semanas, no máximo?

  3. o projeto é instrutivo? ele vai me ensinar alguma coisa nova?


[...] se um projeto é sexy, ele pode ser sumarizado de maneira persuasiva, interessante; em outras palavras, ele tem um ótimo pitch. são os casos em que não é você que tem a ideia, é a ideia que te tem: ela precisa existir e encontra em você uma forma de se manifestar no mundo. caso essa manifestação se concretize, é provável que ela encontre seu próprio público sem muito esforço da sua parte [...]


Se não gostar dos termos, use os próprios – se não gostar da metodologia, use outra; Mas urjo-lhe para que utilize alguma régua – e preferencialmente, uma que lhe dê amplos incentivos para assassinar seus queridos. Subjetiva e pessoalmente, ainda acharia muito legal que ela lhe faça pensar como deixar este mundo melhor, mais interessante, ou mais esquisito do que quando começou a fazer o seu projeto.


E que, quando novamente os olhos julgadores meus e da minha amiga perpassem pelo seu projeto durante a próxima mostra de videogames independentes local, nossas mentes se cruzem pela anima mundi e nesse momento sublime possa pensar


"olha lá os mal-amados kkkk tomar no cu"

5 comentários


josnel
há 4 horas

Tem gente que bate a cabeça, tem um AVC, um infarto, etc. e quando acorda de um coma, começa a escrever muito bem. Não é o teu caso. Texto pedante e vazio. Vai tomar no teu cu.

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vinizinho
há 5 dias

bom texto!! eu já tive pensamentos parecidos diversas vezes, mas acho que o que me vem na cabeça nessas horas não é nem "esse jogo não precisa existir", é mais "você realmente quer fazer esse jogo?"


tipo, vc sabe que a chance disso ter um retorno financeiro positivo é baixo; vc sabe que vai consumir meses, talvez anos da sua vida; vc sabe que vai ser uma luta convencer os seus entes queridos de que você não está maluco.... ...e vc escolheu fazer um jogo que não apresenta nenhum sinal de ter uma alma? tipo não tinha algo mais pessoal, mais maluco e inovador que vc quisesse fazer? in for a penny in for a pound, bota os demônio pra fora…

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Victor de Paiva
Victor de Paiva
há 5 dias
Respondendo a

👆👆👆 palavras frescas do homem mais citado nesta coluna

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Rafael
02 de jul.

Eu tenho comigo que o motivo de querer fazer um jogo é reproduzir experiências marcantes pra mim, e que eu fiquei "putz, eu quero fazer alguém se sentir assim tbm", além da pura curiosidade de explorar mais o "por que X mídia me fez sentir assim?". Então inevitavelmente, eu tenho ideias constantemente derivativas, e sou fascinado por mods, updates de conteúdo, dlc, mais do que fazer algo novo e que "precisa existir". Vlw pelo ataque pessoal brother, vou tentar matar mais meus filhos, mesmo que meu jogo acabe não sendo que nem aquele jogo que eu gosto mto que tava não-intencionalmente copiando. kkkkkk

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Victor de Paiva
Victor de Paiva
02 de jul.
Respondendo a

Obrigado por compartilhar as suas impressões, querido! <3 Acho querer reproduzir uma experiência marcante/familiar um belo motivo para existência. Alguém comentou algo similar no Bluesky ontem, sobre como 'a vida já é muito caótica e às vezes só quero algo familiar, previsível'.

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